Virtualização da vida
A possibilidade impulsionada pela internet de nos comunicarmos com outras pessoas sem a necessidade do encontro presencial, de estar no mesmo espaço-tempo, provocou mudanças nas relações humanas. Poder falar, escrever e opinar sem a necessidade de estar “cara a cara” com seus interlocutores, e, sem a demora caracterizada pela comunicação escrita mediada pelos correios, é um fenômeno recente e modificou o compromisso das pessoas com a questão da autenticidade (verdade) das mensagens emitidas.
Se no início da virtualização da vida existia uma distinção maior entre as ações do mundo real e as do virtual, cada vez mais nossas “pegadas” virtuais são tidas como reais. As amizades, as relações familiares, de trabalho e afetivas, iniciadas ou mantidas através da rede estão mexendo conosco, movimentado nossas emoções, ocupando nosso tempo e nos influenciando. Sobre essa aproximação entre real e virtual, gostei do vídeo do professor Luís Mauro Sá Martino, intitulado “Entre o real e o virtual: como diferenciar um do outro”. Por vezes, essa diferenciação não é bem administrada, pois é mais fácil realizar melhorias e mudanças em nosso perfil nas redes sociais do que na vida real. Neste vídeo, o canal humorístico Porta dos Fundos criou a esquete Vida Real, que aborda a distância entre o que é postado na rede e o vivido.
Fato é que a possibilidade de estar em contato com familiares e amigos distantes geograficamente aumentou a frequência das conversas e aproximou as pessoas. Se antes, familiares que morassem longe ficavam anos sem se ver e sem conversar, hoje podem estar conversando virtualmente. No Brasil, cito os já famosos grupos de família do WhatshApp.
Por outro lado, o não encontro “cara a cara”, pode exacerbar a intolerância e até mesmo o ódio. Se antigamente você não visitaria pessoas com quem não tem afinidade e, consequentemente, não precisaria debater ideias, hoje em dia, estamos em contato cotidiano com pessoas que pensam diferente de nós, inclusive em nossa redes sociais e aplicativos de mensagens. Nas eleições presidenciais de 2018, muitas relações familiares foram abaladas ou desfeitas por conta das desavenças políticas. Utilizando humor para abordar o tema do ódio e a desinibição que as relações virtuais possibilitam em alguns indivíduos, o canal humorístico Porta dos Fundos criou a esquete Internet, em que a pessoa confunde o espaço real com o virtual.
Penso que a autenticidade e o compromisso com a verdade é o ponto menos discutido e que parece menos importar para as grandes empresas, governos e para nós usuários. A possibilidade de contato instantâneo, de consumir os conteúdos que deseja e de produzir conteúdo, disponibilizando-o para o mundo inteiro são mais sedutores do que a preocupação com a verdade, com a tolerância e com o respeito à privacidade.
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